A reforma da previdência torna-se cada vez mais necessária
para ajustar as contas do Brasil, e para garantir o futuro
de pequenos brasileiros.
"Meu nome é Pedro, tenho 10 anos e sou carioca". "Meu nome
é Almir, tenho 9 anos e moro no Maranhão". "Meu nome é Carolina,
3 anos".
O que essa criançada tem a ver com a reforma da Previdência?
Bem, se a reforma não acontecer em breve eles podem ficar
sem aposentadoria. Preste atenção para entender o tamanho
do problema.
"A reforma em si é para resolver a situação atual que é: o
ralo está muito maior do que a torneira. A torneira são os
que contribuem e o ralo são os que recebem", explica o professor
de Economia Luís Carlos Ewald.
Fomos com o professor Luís Carlos a um posto do Instituto
Nacional de Seguridade Social (INSS), no Rio de Janeiro.
"Eu não sei nem por onde começar esse negócio de Previdência.
Vi só falar, mas não faço a menor idéia", diz uma senhora
que espera na fila do posto.
"A Previdência é um sistema que garante que a pessoa, depois
de trabalhar durante muito tempo, possa se aposentar e ganhar
do estado por conta de contribuições que ela fez durante o
tempo que ela trabalhou", esclarece o professor.
Hoje, no Brasil, são cerca de 22 milhões de pessoas recebendo
benefícios do INSS. Cerca de 20 milhões trabalhavam na iniciativa
privada. Como a Dona Maria Lúcia, que era costureira: "Eu
sou aposentada, graças a Deus! Recebo R$ 200 por mês".
Para quem trabalhava na iniciativa privada o valor máximo
da aposentadoria é hoje de R$ 1.561. Já para os cerca de 2
milhões de aposentados do funcionalismo público, os valores
são diferentes. "O que acontece? Eles são aposentados com
salário integral: quem ganha R$ 1 mil se aposenta com R$ 1
mil", diz Luís Carlos.
Cerca de 51% do dinheiro da Previdência serve para pagar os
funcionários públicos aposentados e as pensões. Os outros
49% pagam mais de 20 milhões de aposentados.
"A Previdência pública federal, estadual e municipal, são
responsáveis hoje, pelo grande rombo da Previdência, que representa
4,2% de tudo o que o país produz, o chamado Produto Interno
Bruto (PIB). Então, é muito dinheiro de prejuízo que é dado
pro governo", explica o professor.
O governo gasta muito mais do que recebe. Hora de reformar
o sistema. "Professor, por gentileza, o senhor pode explicar
esse negócio da reforma da providência?", pede a pensionista
Eronele Santos, errando o nome do instituto.
Com bom humor, Luís Carlos responde: "A providência eu não
sei se vai ser reformada. O que precisa é uma providência
para reformar a Previdência. A reforma é se tomar uma série
de medidas para que o prejuízo que o governo está tendo com
a estrutura atual, principalmente com a Previdência pública,
seja sanado, pelo menos, no futuro".
"Eu gostaria de saber, por exemplo, se aumentaria o teto de
aposentadoria?", pergunta o contador Murilo Lima.
"O importante para ele é não deve ter expectativa de grandes
aumentos ou mudanças na situação do segmento privado, daqueles
funcionários que trabalham nas empresas privadas", esclarece
o professor.
"Para quem falta cinco ou três anos para se aposentar como
autônoma, vai entrar no processo?", indaga a vendedora Elza
da Silva.
"Esse segmento, essa parte da aposentadoria não vai mudar",
reponde rapidamente Luís Carlos.
Se pouca coisa muda no setor privado, são muitas as mudanças
no setor público.
"Eu já tenho 30 anos. Como é que eu fico com a questão do
direito adquirido?", pergunta a funcionária pública Maria
Santana.
"Você não tem ainda o direito adquirido definido, porque depende
do que vem pela reforma. O que você tem é o que se chama direito
acumulado. Toma cuidado", alerta o professor.
"Bom professor, então qual seria o nosso ganho?", questiona
Maria Santana.
"Ganho, você pode tirar o cavalinho da chuva que não vai ter
mesmo. Eu posso explicar qual seria a sua perda potencial.
Isso tudo vai depender muito de como venha a ser aprovada
a reforma da Previdência. Eu acredito que o critério não vai
ser injusto", explica Luís Carlos.
"Professor, por que se discute que o aposentado do funcionalismo
público passe a contribuir depois da reforma?".
"Se ele estiver ganhando R$ 3 mil, ele vai se aposentar com
R$ 3 mil, com uma diferença ainda: ele vai deixar de pagar
o INSS, que é uma coisa que todo o país reclama. Já que ele
está ganhando igual ao que ganhava antes, pelo menos não vai
ganhar mais. Pague a sua Previdência", enfatiza o professor.
"E a aposentadoria única?"
"Será uma coisa implantada a longo prazo, porque os direitos
adquiridos são uma realidade e vai ser muito difícil o período
de transição", afirma Luís Carlos.
"Essa reforma que o governo Lula vai fazer, ela vai ser feita
em várias e etapas e se vai dar tempo de aprova-la no governo
dele?", pergunta o motorista Isidro Feijó.
"Eu acredito que seja possível até aprovar durante o governo
dele. Vai ser preciso uma mobilização grande, uma mobilização
popular. O Congresso está de acordo, mas a coisa não é fácil",
esclarece o professor.
A gente torce que a reforma seja aprovada o quanto antes para
que a pequena Carolina, do começo da reportagem, possa aproveitar,
de forma justa, a sua aposentadoria daqui a uns 57 anos.